Líquen plano
O que você encontra aqui
Se você chegou aqui com lesões arroxeadas que coçam nos punhos, ou porque o dentista viu um rendilhado branco na sua bochecha, saiba de partida que essas duas situações, apesar do mesmo nome, não se comportam do mesmo jeito. O líquen plano é uma inflamação que pode aparecer na pele, na boca, no couro cabeludo, nas unhas e na região genital, e o que muda de um lugar para outro não é um detalhe: muda o tempo que dura, muda a chance de passar sozinho e muda o que se faz a respeito.
Esta página trata cada forma separadamente, de propósito. Misturá-las seria tranquilizar demais quem tem a forma que exige pressa, e assustar sem motivo quem tem a que costuma ir embora sozinha.
Por que acontece
O líquen plano é uma reação do próprio sistema de defesa contra as células da base da pele e das mucosas. As células de defesa se acumulam exatamente na linha onde a superfície encontra a camada de baixo, e é essa agressão que produz o aspecto característico das lesões.
Na maior parte dos casos não se encontra uma causa, e é importante dizer isso com todas as letras, porque a pergunta aparece sempre. Não é contagioso, não se pega de ninguém, não passa para outras pessoas e não tem relação com falta de higiene.
Há algumas situações em que se procura um fator associado, porque isso pode mudar a conduta:
Alguns medicamentos de uso contínuo produzem lesões muito parecidas com as do líquen plano. Remédios para pressão, alguns diuréticos, antimaláricos, anti-inflamatórios e outros já foram descritos nesse papel. Quando a suspeita existe, a lista dos seus medicamentos é parte essencial da avaliação, e por isso peço que você a traga na consulta.
A hepatite C aparece com mais frequência em quem tem líquen plano do que na população em geral, embora o quanto isso pesa varie muito de país para país e seja assunto ainda discutido entre nós. Na prática, é comum eu pedir a sorologia, principalmente quando as lesões estão na boca.
Como se manifesta
Na pele
É a apresentação clássica e a mais fácil de reconhecer. Surgem lesões achatadas, de contorno anguloso, com uma cor que puxa para o violeta ou o vinho, e que coçam, às vezes bastante. Os locais preferidos são a face interna dos punhos e os tornozelos, mas podem se espalhar.
Olhando de perto, sobretudo com a luz e a lente da dermatoscopia, aparecem linhas brancas muito finas cruzando a superfície da lesão. Elas têm nome próprio e são um sinal bastante confiável do diagnóstico.
Duas coisas costumam surpreender. A primeira é que arranhar a pele pode fazer nascer lesão nova exatamente no risco do arranhão. A segunda é o que fica depois: o líquen plano da pele cura deixando manchas escuras, que costumam demorar mais para sair do que a lesão original levou para desaparecer. Essa mancha é consequência da inflamação que passou, e não significa, por si só, que a doença continue ativa.
O curso desta forma é o mais favorável de todas. Na maioria das pessoas, o quadro da pele entra em remissão sozinho ao longo de um a dois anos, e o tratamento serve sobretudo para controlar a coceira e encurtar esse tempo.
Na boca
Aqui a história é diferente, e é onde mais gente chega assustada, muitas vezes encaminhada pelo dentista.
A forma mais comum é um desenho rendilhado esbranquiçado, quase sempre nas duas bochechas ao mesmo tempo, que não dói e não arde. Muita gente descobre por acaso, numa consulta odontológica de rotina. Existem também formas avermelhadas e formas com feridas, e essas sim incomodam, dificultam comer alimento ácido ou condimentado e podem afetar a gengiva. As formas podem conviver e mudar ao longo do tempo: quem tem o rendilhado branco também pode desenvolver áreas vermelhas ou feridas, e é por isso que o acompanhamento não termina quando o incômodo passa.
Uma observação prática: quando a alteração aparece de um lado só, costumo procurar outra explicação, como reação de contato com material de restauração, porque o líquen plano da boca em geral é simétrico.
O curso desta forma é o mais persistente. Ao contrário da pele, o líquen plano da boca raramente desaparece sozinho, e conviver com ele por anos é o cenário mais comum. Isso não significa tratar sempre, como explico adiante.
Sobre o risco de câncer de boca
O líquen plano da boca pede acompanhamento, e a razão é honesta. Raramente, o câncer de boca aparece associado às formas vermelhas ou com feridas de longa duração, sobretudo quando já houve cicatriz.
Isso não vale para todas as formas. Quando o rendilhado branco aparece sozinho, sem áreas vermelhas nem feridas junto, não há associação demonstrada nos estudos que consultei. A palavra “sozinho” é a que importa aqui, porque as formas convivem: o que afasta a preocupação é o rendilhado isolado, não a simples presença dele.
Quantas pessoas isso atinge varia muito de um estudo para outro, e prefiro não repetir aqui uma porcentagem que soaria mais precisa do que de fato é. O que se sabe com segurança é o que importa para você: toda pessoa com líquen plano na boca merece acompanhamento, com atenção redobrada nas áreas vermelhas, com feridas, antigas ou cicatriciais. E qualquer ferida na boca que não cicatriza em mais de quinze dias merece ser olhada, que é o sinal de alerta que o Instituto Nacional de Câncer orienta a não deixar passar.
No couro cabeludo
Esta é a forma que mais exige pressa, e o motivo é direto: o que se perde aqui não volta.
Ela aparece como áreas de queda de cabelo em que a pele fica avermelhada em volta dos fios, com descamação agarrada à saída deles, e os cabelos das bordas saem com facilidade. Conforme avança, a área vai ficando lisa e clara, sem os pontinhos por onde os fios saem.
Vale saber de uma coisa que quase ninguém associa à queda: coceira, ardência ou sensibilidade no couro cabeludo são comuns aqui, às vezes antes de a falha ficar visível. Se o seu couro cabeludo anda incomodando e o cabelo está caindo, isso não é coincidência e merece ser examinado.
Isso acontece porque a inflamação destrói a raiz do cabelo e a substitui por cicatriz. Enquanto há inflamação ativa, há o que tratar e o que preservar. Depois que o folículo se foi, nenhum tratamento o traz de volta, e é por isso que o diagnóstico precoce muda o resultado final mais do que a escolha do remédio.
Se a sua questão principal é queda de cabelo, e você ainda não sabe de que tipo se trata, a página de queda de cabelo explica como as causas se diferenciam.
Nas unhas
O líquen plano também pode atingir as unhas. A unha fica com sulcos no sentido do comprimento, mais fina, quebradiça, e pode rachar.
Aqui também há risco de sequela definitiva. Quando a inflamação atinge a região onde a unha é fabricada, pode haver perda permanente, ou a formação de uma aderência que divide a unha. Por isso unha que muda de forma progressivamente, sem trauma que explique, merece avaliação sem demora.
Na região genital
Pode ocorrer sozinho ou junto com o da boca. Na mulher, a forma com feridas é a mais frequente no consultório especializado, causa ardência, dor à relação e, com o tempo, alteração da anatomia da região, que não se desfaz depois. É uma apresentação que merece tratamento ativo e acompanhamento, e não observação.
No homem o comportamento é diferente, e é justo dizer isso com clareza. As lesões aparecem sobretudo na glande, às vezes desenhando um anel, e na maior parte dos casos não fazem feridas, incomodam pouco ou nada e respondem bem ao tratamento. Isso não é motivo para ignorar: parte dos casos evolui com aderências e estreitamento da pele que recobre a glande, e a aparência se confunde com a de outras doenças genitais que pedem conduta diferente. Quem separa uma da outra é o exame e, quando preciso, a biópsia.
O que acontece na avaliação
Na consulta eu examino a pele inteira, e não apenas onde você reparou. Isso não é excesso de zelo: encontrar lesão típica no punho pode explicar de imediato uma alteração na boca que vinha sem diagnóstico há meses, e o contrário também acontece.
Uso a dermatoscopia, que é uma lente com iluminação própria, para ver detalhes que a olho nu não aparecem. No couro cabeludo ela ajuda a procurar sinais de inflamação ativa e de cicatriz, e é essa distinção que define a urgência.
Pergunto por medicamentos de uso contínuo, inclusive os que você toma há anos e nem lembra de citar, e pelo tempo de evolução de cada lesão.
A biópsia entra quando o quadro não é típico, quando é preciso separar o líquen plano de outras doenças parecidas, e nas lesões do couro cabeludo, onde confirmar o diagnóstico antes de definir a conduta muda o que se faz. É um procedimento simples, feito com anestesia local, no próprio consultório.
Conforme o caso, peço exames de sangue, entre eles a sorologia para hepatite C.
Como o tratamento é escolhido
Não existe um tratamento do líquen plano. Existe o tratamento da forma que você tem, e a diferença entre eles é grande.
Na pele, o objetivo é aliviar a coceira e apressar a regressão de algo que tende a passar. A base são as pomadas de corticoide, escolhidas conforme a região do corpo e a espessura da lesão. Lesões poucas e localizadas costumam responder bem a isso. Quando a doença é extensa, quando coça muito ou quando não responde ao que se passa na pele, existem remédios por via oral e tratamentos com luz, que discuto caso a caso.
Na boca, a primeira decisão é se há o que tratar. O rendilhado branco que não dói não precisa de tratamento, e insistir nele expõe você a efeito colateral sem oferecer benefício. Nesse caso não é preciso tratar, mas mantenho acompanhamento, em geral anual. Quando há ardência ou ferida, uso corticoide em apresentação apropriada para a mucosa, e aqui vale um detalhe prático que faz diferença: creme não serve dentro da boca, e a forma de aplicar importa tanto quanto a escolha do medicamento. Quando não basta, ou quando o corticoide não é bem tolerado, o tacrolimo aplicado no local é a opção seguinte. Casos mais difíceis podem exigir medicação por via oral, sempre por tempo definido e com acompanhamento.
Vale saber de antemão que o efeito indesejado mais comum do corticoide usado dentro da boca é o sapinho, a candidíase, que se previne e se trata com facilidade. Saber disso evita interpretar como piora da doença algo que é do tratamento e tem solução simples.
No couro cabeludo, o objetivo é outro: interromper a inflamação antes que ela destrua mais folículos. O tratamento costuma ser mais intenso desde o início, com corticoide aplicado no local ou infiltrado. Conforme a extensão e a atividade da doença, pode ser preciso associar medicação por via oral. A meta realista é parar a progressão e preservar o que existe, não recuperar o que já virou cicatriz, e prefiro dizer isso claramente na primeira consulta a criar uma expectativa que o tratamento não pode cumprir. O que costuma melhorar bem, e antes do resto, é o desconforto: a coceira e a ardência tendem a ceder já nas primeiras aplicações.
Nas unhas, o tratamento costuma exigir corticoide infiltrado na área ou por via oral, porque a progressão deixa dano permanente. Na forma vulvar com feridas, a base é o corticoide aplicado no local, e o tacrolimo entra quando ele não basta ou não é tolerado; havendo acometimento da vagina, a apresentação precisa ser própria para ali. O motivo comum às duas é o mesmo: evitar a sequela.
Nada disso inclui dose ou esquema nesta página, de propósito. Isso se define na consulta, com o seu caso na frente.
No dia a dia
Coçar piora, e não só pelo desconforto: o atrito pode fazer nascer lesão nova no lugar arranhado. Controlar a coceira é, portanto, parte do tratamento e não um conforto à parte.
Quem tem lesão na boca costuma se dar melhor evitando alimento muito ácido, muito condimentado ou muito quente nos períodos de ardência, e mantendo a higiene bucal em dia, com escova macia. Manter as consultas com o dentista é parte do acompanhamento, não algo separado dele.
E vale repetir o mais prático de tudo: leve a lista dos seus medicamentos.
Perguntas frequentes
Líquen plano tem cura? Depende de qual. O da pele costuma regredir sozinho em um a dois anos, e nesse sentido sim. O da boca tende a ser de convívio longo, com períodos melhores e piores, e o objetivo passa a ser controle e acompanhamento. No couro cabeludo, o que já cicatrizou não volta, e o objetivo é controlar a inflamação e impedir que a perda avance.
Líquen plano pode virar câncer? Na pele, não é uma preocupação. Na boca, o risco existe, mas é raro e se concentra nas formas vermelhas ou com feridas de longa duração. O rendilhado branco quando aparece sozinho, sem essas áreas junto, não tem associação demonstrada. É por isso que o acompanhamento existe, e é ele que resolve a questão na prática.
É contagioso? Não. Não se transmite por contato, por beijo, por objeto compartilhado nem por relação sexual, inclusive nas formas da boca e da região genital.
As manchas escuras que ficaram vão sair? Em geral sim, mas devagar, e podem levar bem mais tempo que a lesão original. Elas são a marca de onde houve inflamação, não doença ativa.
Tem a ver com estresse? Muita gente relata piora em períodos difíceis, e a convivência com uma doença que arde ou coça cobra o seu preço no humor. O que ainda se discute é a direção dessa relação, e nenhuma das duas leituras justifica atribuir a doença ao estresse e parar por aí.
Preciso parar meu remédio de pressão por causa disso? Não por conta própria, nunca. Se houver suspeita de que um medicamento esteja envolvido, isso se avalia junto com quem o prescreveu, pesando o que se ganha e o que se perde. Suspender medicação de uso contínuo sozinho costuma causar problema maior que o do líquen plano.
Quando eu preciso procurar atendimento sem esperar? Ferida na boca que não cicatriza em mais de quinze dias, endurecimento ou dor nova numa lesão antiga, queda de cabelo com vermelhidão e descamação em volta dos fios, e unha que se deforma progressivamente sem trauma que explique. Nessas quatro situações, quanto antes melhor.
Para conferir as informações
- Líquen plano oral, Anais Brasileiros de Dermatologia (SBD), 2011 — revisão do Ambulatório de Estomatologia da Dermatologia do Hospital das Clínicas da FMUSP, com casuística própria; é a fonte brasileira sobre a forma da boca e sobre a leitura mais cautelosa do risco de malignização.
- Líquen plano pilar: a importância do diagnóstico precoce, Surgical & Cosmetic Dermatology (SBD), 2017 — é a origem da ênfase, nesta página, em tratar a forma do couro cabeludo como situação de urgência.
- Câncer de boca, Instituto Nacional de Câncer (INCA), 2019 — é a origem do prazo de quinze dias para a ferida na boca que não cicatriza.
Se você tem lesões arroxeadas que coçam nos punhos ou nos tornozelos, se o dentista viu um rendilhado branco na sua bochecha, se a boca arde sem passar ou se o cabelo está caindo com vermelhidão em volta dos fios, vale examinar. Na consulta dá para definir qual das formas é a sua, o que muda entre elas e o que faz sentido fazer agora.