Urticária: as placas que coçam, aparecem e somem
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Quase todo mundo que chega aqui com urticária faz a mesma pergunta logo na porta: “doutor, eu comi alguma coisa?”. É a suspeita mais natural do mundo, e por isso vale começar por ela. Na maior parte das vezes a resposta é não, e isso costuma ser recebido com alívio e frustração ao mesmo tempo. Alivia porque poupa uma lista de proibições que não teria serventia; frustra porque a pessoa queria um culpado. Muita gente chama o quadro de “alergia na pele”, e o nome popular já carrega essa suposição.
Esta página explica o que é a urticária, o que separa a que passa em dias da que se instala por meses, o que a investigação realmente encontra e o que costuma ajudar. Ela não substitui a consulta, e a decisão sobre o seu caso depende do exame e da sua história.
Manchas e placas que coçam e somem: como reconhecer
A lesão da urticária tem nome próprio: urtica, que é a placa elevada, avermelhada ou esbranquiçada no centro, que coça e lembra a marca de uma queimadura de urtiga. Ela pode ser pequena como uma lentilha ou grande como a palma da mão, e várias podem se juntar formando desenhos no corpo.
O traço que mais importa não é a aparência, é o relógio. Em regra, cada placa desaparece em até 24 horas, sem deixar mancha arroxeada ou acastanhada no lugar. Ela some de um ponto e aparece em outro, o que dá a impressão de que a urticária “anda pelo corpo”. A crise inteira pode durar semanas, mas cada lesão é passageira. O que a unha deixa de arranhão não conta: a marca que importa é a que fica depois que a placa foi embora sozinha.
Em boa parte das pessoas aparece também o angioedema, que é um inchaço mais profundo, geralmente sem coceira e com sensação de repuxar ou queimar. Costuma pegar lábio, pálpebra, orelha, mão e pé, e demora mais para ceder que a placa da pele, podendo levar até três dias.
Aguda ou crônica: o que muda depois de seis semanas
A divisão é simples de contar e diz muito sobre o que investigar.
A urticária aguda dura menos de seis semanas e é a mais comum. Nela, com alguma frequência se identifica o que desencadeou. Chamam atenção duas coisas que contrariam o senso comum: a associação com infecções virais é frequente, e a associação com alergia alimentar é bem menor do que as pessoas imaginam. Muita gente que teve urticária durante uma virose passa anos evitando um alimento que nunca teve culpa.
A urticária crônica é a que persiste ou reaparece por mais de seis semanas, mesmo que não esteja presente todos os dias. Aqui a lógica se inverte: em pelo menos sete de cada dez casos a causa permanece desconhecida, e não por falta de procurar. Quando não há gatilho identificável, o quadro recebe o nome de urticária crônica espontânea, e é dela que trata a maior parte desta página. Ela atinge até uma em cada cem pessoas, e começa com mais frequência entre os vinte e os cinquenta anos.
Vale distinguir dessas duas a urticária episódica, que é o surto curto que volta de tempos em tempos ao longo de anos. Esse padrão sugere um fator do ambiente entrando e saindo da vida da pessoa, e vale a pena procurá-lo.
Quando existe um gatilho: as formas induzíveis
Aqui é preciso desfazer uma confusão comum, porque são dois eixos diferentes. A primeira pergunta é de tempo: aguda ou crônica. A segunda é de gatilho: espontânea ou induzível. Uma urticária induzível que já passou das seis semanas também é crônica, e a régua da seção anterior vale para ela igual.
Nas induzíveis, um estímulo físico produz a lesão de maneira previsível. As mais frequentes:
- Dermografismo, em que basta atritar a pele para surgir um vergão em poucos minutos. É a forma mais comum, e muita gente convive com ela sem saber o nome.
- Urticária de pressão tardia, que aparece horas depois de uma pressão mantida, como a alça da bolsa no ombro, o cós da calça ou ficar sentado muito tempo no mesmo lugar.
- Urticária ao frio, desencadeada por ar frio, água fria ou vento.
- Urticária colinérgica, ligada ao aumento da temperatura do corpo, venha ele de onde vier: exercício, banho quente, comida apimentada ou nervosismo. As lesões são miúdas, numerosas e duram pouco.
- Urticária solar, aquagênica (contato com água em qualquer temperatura) e vibratória são mais raras, mas existem.
O que caracteriza todas elas é serem reproduzíveis: o mesmo estímulo, aplicado de novo, faz a lesão voltar. É isso que permite confirmar o diagnóstico no consultório em vez de deduzi-lo. Essas provas são feitas de forma controlada, e aqui vai um aviso de segurança que vale mais que o diagnóstico: quem suspeita de urticária ao frio não deve testar isso mergulhando em água fria. Molhar o corpo inteiro de uma vez pode desencadear uma reação generalizada, com queda de pressão dentro da água. Pelo mesmo motivo, quem já tem esse diagnóstico não deve entrar sozinho em mar ou piscina frios.
As duas formas podem conviver na mesma pessoa: cerca de três em cada dez com urticária crônica espontânea também têm episódios provocados por fator físico.
Sinais que pedem avaliação rápida
Antes desta lista, uma ressalva que importa: a urticária é, na maioria esmagadora das vezes, um quadro incômodo e benigno. O que vem abaixo é a minoria, e está aqui para você saber reconhecer, não para ficar vigiando a pele com medo.
Procure atendimento imediato, em pronto-socorro, se junto com as placas aparecer:
- inchaço de língua, garganta ou dificuldade para engolir;
- falta de ar, chiado no peito ou aperto na garganta;
- tontura, desmaio ou queda da pressão;
- vômitos e cólica intensa junto com a urticária.
Esses sinais sugerem que a reação passou da pele, e o lugar de avaliar isso não é o consultório.
Há ainda um conjunto de achados que não é urgência, mas muda o diagnóstico, e por isso vale prestar atenção e contar na consulta: lesão que dura mais de 24 horas no mesmo lugar, que dói ou queima em vez de coçar, e que ao sumir deixa uma mancha arroxeada ou acastanhada. Esse desenho foge do padrão da urticária comum e levanta a suspeita de vasculite urticariforme ou de outra imitação. Não fecha o diagnóstico sozinho, e conforme a avaliação pode ser preciso fazer uma pequena biópsia. Se você desconfiar disso, um recurso simples ajuda muito: circule uma lesão com caneta e observe se ela ainda está lá no dia seguinte.
Inchaço que aparece sem nenhuma placa junto merece investigação própria, mesmo que ninguém na família tenha o mesmo problema, porque existem formas de angioedema que não respondem ao tratamento habitual da urticária. E vale repetir: inchaço de língua ou garganta é emergência com ou sem placas na pele.
O que acontece na avaliação
A maior parte do diagnóstico vem da conversa, e não de exame. Pergunto há quanto tempo começou, quantos dias por semana aparece e, sobretudo, quanto tempo dura cada lesão, porque essa resposta separa a urticária de várias imitações. Pergunto sobre medicamentos em uso: alguns anti-inflamatórios pioram a urticária, e certos remédios de pressão merecem atenção por poderem causar angioedema sem placa nenhuma na pele, às vezes depois de anos de uso tranquilo. Pergunto sobre inchaço, sobre febre, sobre dor nas juntas e sobre o que a pessoa já tentou.
Um pedido prático, porque quase ninguém chega à consulta com lesão para mostrar: fotografe as placas com o celular quando elas aparecerem, e anote a hora. Uma foto com horário vale mais que qualquer descrição, e é ela que responde à pergunta das 24 horas.
No exame, olho as lesões que estiverem presentes, procuro angioedema e testo o dermografismo, que leva segundos. Quando a história sugere uma forma induzível, existem testes de provocação específicos para confirmar.
Sobre exames: por que menos costuma ser melhor
Esta é a parte que mais surpreende, e vale explicar por quê.
Numa revisão sistemática que reuniu 29 estudos e 6.462 pacientes com urticária crônica, uma doença interna foi considerada a causa do quadro em 1,6% deles. E o achado mais útil dessa revisão foi outro: pedir mais exames não esteve associado a encontrar mais coisa. O que aumenta o rendimento é a investigação dirigida pela história e pelo exame, não o tamanho da lista.
Não é opinião isolada: tanto o consenso da Sociedade Brasileira de Dermatologia quanto a diretriz internacional recomendam um conjunto limitado de exames. Na prática, isso quer dizer uma triagem pequena, escolhida para procurar sinais de doença sistêmica, mais o que a sua história específica indicar. A função da tireoide costuma entrar nessa avaliação, porque alterações tireoidianas são de fato mais frequentes em quem tem urticária crônica.
O que não se justifica é a bateria enorme de testes de alergia a alimentos. Ela raramente explica uma urticária crônica, e tem um custo que vai além do dinheiro: cada resultado duvidoso vira um alimento cortado sem necessidade, e a lista de proibições cresce sem que a urticária melhore.
Como o tratamento é escolhido
O objetivo do tratamento é controlar os sintomas enquanto a doença segue o seu curso. A resposta e o tempo até chegar a um controle variam de pessoa para pessoa.
A base são os anti-histamínicos de segunda geração, que em geral dão pouco ou nenhum sono, ainda que uma minoria sinta sonolência mesmo com eles. Na urticária crônica costuma-se preferir o uso regular ao uso só quando a placa aparece, e essa diferença pesa: tomado depois que a lesão já surgiu, o remédio chega atrasado.
Quando a dose habitual não basta, existe uma sequência bem estabelecida de ajustes, e depois dela outras opções para os casos que resistem, incluindo tratamentos injetáveis e imunossupressores. Nada disso é decidido por uma página: depende do seu quadro, dos seus exames e do que você já usou.
Uma palavra sobre corticoide, porque é o ponto que mais me preocupa quando alguém chega tratando urticária por conta própria há meses. Em crise forte, o médico pode considerar um curso curto. Mas o uso prolongado ou repetido deve ser evitado, pelos efeitos que ele traz e porque não muda o curso da doença: os sintomas voltam enquanto a urticária seguir ativa, e não porque o remédio foi retirado. Daí nasce o ciclo de doses cada vez mais frequentes. Se você está nesse ciclo, isso por si só é motivo de consulta.
Quanto tempo isso vai durar
É a pergunta mais frequente, e dá para respondê-la com números.
A urticária crônica espontânea é, na maioria das pessoas, uma doença com prazo. Entre 30% e 50% das pessoas entram em remissão dentro do primeiro ano, ou seja, a doença some, ainda que tenham usado remédio para controlar os sintomas no caminho. Outra parcela remite ao longo dos cinco primeiros anos. Depois disso as estimativas variam: o artigo brasileiro citado nas fontes aponta cerca de 20% ainda com a doença, e outra síntese consultada relata até 30%. Quadros mais intensos, a presença de angioedema e alterações autoimunes da tireoide costumam se associar a uma duração maior.
Nada disso resolve a coceira de hoje, e nenhuma estimativa diz quanto tempo vai durar no seu caso. Mas costuma mudar a forma de encarar o acompanhamento saber que, para a maioria das pessoas, existe um depois.
No dia a dia
Nenhuma dessas medidas trata a urticária, mas várias reduzem o incômodo:
- Calor, banho muito quente, álcool e noites mal dormidas costumam aumentar a coceira, mesmo sem serem a causa da doença.
- Anti-inflamatórios comuns pioram o quadro em parte das pessoas. Se você notar essa relação, anote e conte na consulta antes de eliminá-los por conta própria.
- Roupa apertada, alça de bolsa e elástico marcam mais a pele de quem tem dermografismo ou urticária de pressão.
- Coçar alivia por segundos e piora depois. Para quem não tem urticária ao frio, uma compressa fresca costuma render mais.
- Anotar num caderninho ou no celular quando as crises vêm ajuda de verdade, principalmente para descobrir formas induzíveis que passam despercebidas.
Perguntas frequentes
Urticária é sempre alergia?
Não, e essa é provavelmente a ideia mais difundida e menos exata sobre a doença. Alergia é uma das causas possíveis, sobretudo nos quadros agudos, mas a urticária crônica espontânea, que é a que traz a maior parte das pessoas ao consultório, em geral não é alérgica. Ela tem mais a ver com o comportamento das células da própria pele do que com uma substância de fora.
Preciso fazer teste de alergia para achar a causa?
Na urticária aguda com uma suspeita clara, o teste dirigido faz sentido. Na urticária crônica sem pista nenhuma na história, a bateria ampla de testes tem rendimento muito baixo, como os números acima mostram, e o risco de gerar restrições alimentares desnecessárias é real. A investigação sensata é dirigida pela sua história, não pelo tamanho da lista.
Urticária tem cura?
Na maioria dos casos ela tem fim, o que não é exatamente a mesma coisa. A doença tende a se resolver sozinha com o tempo, mas esse tempo varia muito de pessoa para pessoa, e o tratamento serve para você atravessar o período com a vida funcionando. Nas formas induzíveis, o controle passa também por reconhecer e manejar o gatilho.
Urticária é contagiosa?
Não. Ela não passa de pessoa para pessoa por contato, por toalha ou por convívio.
Posso tomar banho quente ou fazer exercício?
Pode, conforme a sua tolerância. Como o aumento da temperatura do corpo aumenta a coceira em muita gente, e é o gatilho direto da urticária colinérgica, água morna costuma ser mais confortável que água quente. Isso é conforto, não proibição. O que muda a conversa é outra coisa: se o exercício vier com falta de ar, tontura, inchaço de língua ou garganta ou mal-estar intenso do estômago, pare e procure atendimento na hora.
Estresse causa urticária? E a tal “urticária nervosa”?
“Urticária nervosa” ou “emocional” é como muita gente chama o quadro, e o nome exagera o papel do estresse. Ele não é a causa da doença, mas piora a coceira e a percepção dela em boa parte das pessoas, e noites mal dormidas fazem o mesmo. Tratar a urticária costuma melhorar o sono, e o sono melhor costuma melhorar a urticária.
Para conferir as informações
- Sociedade Brasileira de Dermatologia — Urticária
- Consenso da Sociedade Brasileira de Dermatologia sobre urticária crônica espontânea em adultos — Anais Brasileiros de Dermatologia
- Urticária crônica em adultos: o estado da arte — Anais Brasileiros de Dermatologia
- Diretriz internacional EAACI/GA²LEN/EuroGuiDerm/APAAACI sobre urticária (2022)
- Kozel MM e col. Exames laboratoriais e diagnósticos identificados na urticária crônica: revisão sistemática. J Am Acad Dermatol. 2003;48:409 — é a origem do dado de 1,6%
- Associação Brasileira de Alergia e Imunologia — Urticária ao frio
Se você quer avaliar o seu caso
Vale procurar avaliação se os episódios se repetem há mais de seis semanas, se o controle está dependendo de corticoide repetido, ou se aparece angioedema sem placa na pele. Na consulta dá para separar o que é urticária do que apenas se parece com ela, verificar se existe um gatilho e discutir o acompanhamento. Inchaço de língua ou garganta, falta de ar e desmaio não esperam consulta: são pronto-socorro.