Micose de pele: pano branco, impinge, frieira e micose na virilha

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“Micose” é uma palavra que junta doenças bem diferentes. Duas pessoas usam o mesmo nome para coisas que não têm a mesma causa, não se transmitem do mesmo jeito e não se tratam igual. Por isso o primeiro passo é separar o pano branco das tineas.

Ela não substitui a consulta, e a decisão sobre o seu caso depende do exame.

Existem outras micoses da pele, como a candidíase das dobras. Aqui vou tratar dos dois grupos que mais se confundem justamente por dividirem os apelidos:

O pano branco, cujo nome técnico é pitiríase versicolor, é causado por leveduras do gênero Malassezia. A diferença que importa é que esse fungo faz parte da flora normal da pele humana. Ele já mora em você, e na maioria das pessoas nunca causa nada. A doença aparece quando ele encontra condições para se multiplicar, e não quando alguém o “passa” para você.

As tineas são outra história. São causadas por dermatófitos, fungos que vêm de fora: de outra pessoa, de um animal ou do solo. Recebem sobrenome conforme o lugar onde estão, e cada um tem seu apelido popular. Essas, sim, se transmitem.

Pano branco (pitiríase versicolor)

São manchas com descamação fina, que costumam aparecer no tronco, nos ombros, no pescoço e na parte de cima dos braços. Nem sempre são brancas: podem ser mais claras que a pele ao redor, mas também acastanhadas ou avermelhadas, e é daí que vem o “versicolor” do nome. Costumam não coçar, ou coçar pouco.

Três dúvidas sobre o pano branco aparecem quase toda semana no consultório:

  • Não é falta de higiene. Não tem relação com banho, com sabonete nem com limpeza.
  • Não é contagiosa. Você não pega de ninguém e não passa para ninguém, nem dividindo toalha, nem na cama, nem na piscina.
  • Não é “micose de praia”. O sol não transmite nem causa a doença. O que ele faz é aumentar o contraste: a pele ao redor bronzeia, a área afetada não acompanha, e a mancha que já estava lá aparece de repente. Calor, suor e oleosidade, esses sim, favorecem o fungo que já mora na pele, e é por isso que o verão junta as duas coisas e leva a culpa.

Por que a mancha continua depois que o fungo já foi

Tratar o fungo e recuperar a cor da pele são duas coisas com prazos diferentes. O fungo costuma responder bem, e relativamente rápido. A cor pode levar de algumas semanas a alguns meses para se igualar de novo. Nesse intervalo a mancha continua no espelho, mesmo sem infecção nenhuma ativa.

Como a mancha continua visível, muita gente entende que o tratamento falhou, recomeça por conta própria com produto de balcão, e entra num ciclo sem necessidade. Vale dizer com cuidado: a mancha sozinha não responde se ainda há fungo ou não. Ela pode ser só pigmento voltando no seu ritmo. Mas se a descamação reaparecer, se a área aumentar, ou se ficar dúvida, isso se resolve reavaliando, não recomeçando o tratamento no escuro.

A recidiva é comum, e isso não é culpa sua

O pano branco volta com frequência, principalmente nos meses quentes. Num estudo brasileiro de Framil e colaboradores, publicado nos Anais Brasileiros de Dermatologia em 2011, 102 pessoas foram acompanhadas por doze meses depois de um tratamento adequado: cerca de um terço não teve nenhuma recidiva, mais da metade teve de uma a quatro, e o grupo restante manteve um curso crônico ao longo do acompanhamento. Repare que todas elas haviam sido tratadas. Sem tratamento nenhum, o quadro pode se arrastar por anos.

Quem sabe disso antes conversa diferente na consulta: quando as recidivas são frequentes, dá para avaliar se faz sentido um esquema de manutenção, em vez de tratar sempre do zero na crise.

As tineas: impinge, virilha, frieira e couro cabeludo

  • Impinge (tinea do corpo): placa avermelhada que aumenta pelas bordas, que são mais ativas e descamativas, enquanto o centro tende a clarear. É esse desenho que forma o anel característico. Costuma coçar.
  • Micose na virilha (tinea cruris): placas avermelhadas e descamativas na prega da virilha e na parte interna das coxas, com borda bem marcada, que coçam e ardem. Nos homens, o escroto costuma ser poupado, e esse detalhe ajuda a separá-la da candidíase. Costuma andar junto com a dos pés.
  • Frieira, pé de atleta ou micose nos pés (tinea pedis): descamação e rachaduras entre os dedos, ou a planta inteira com aspecto ressecado e esbranquiçado. Convive com a micose de unha e funciona como reservatório do fungo, o que explica a recontaminação sem fim. A pele rachada também deixa de ser barreira contra bactérias.
  • Micose, ou tinha, do couro cabeludo (tinea capitis): mais frequente em crianças. Aparecem áreas com descamação e falha de cabelo, com fios quebrados rente à pele. Esta forma não se resolve com creme sozinho: o fungo está dentro do fio, e o tratamento precisa ser por via oral, com acompanhamento. ⚠️ Se a área estiver muito inchada, dolorida, com crostas ou pus, a avaliação não deve esperar: as formas muito inflamadas podem deixar cicatriz e falha definitiva de cabelo.

A micose de unha tem página própria, porque o assunto é longo: onicomicose.

O erro mais comum, e o mais fácil de evitar

Passar pomada de corticoide numa micose é um dos enganos mais frequentes que vejo, e o mecanismo dele explica por que engana tanta gente. O corticoide desliga a inflamação, então nos primeiros dias a coceira e a vermelhidão melhoram de verdade, e a pessoa acha que acertou. Só que a inflamação era justamente a defesa contra o fungo. Com ela desligada, ele se multiplica com folga.

Essa apresentação tem nome: tinea incógnita. A lesão pode ficar menos vermelha, descamar menos e perder a borda bem desenhada que identificava a micose, e ao mesmo tempo aumentar. Quando o corticoide deixa de agir, a inflamação volta a aparecer, o que leva a pessoa a passar de novo.

A história típica que ouço no consultório é essa: “melhorou nos primeiros dias, depois piorou e foi crescendo”. Muitas dessas pomadas são compradas sem receita, ou sobraram de outro tratamento, e algumas misturam corticoide com outras substâncias sem que se perceba.

⚠️ Isso não quer dizer para você largar um remédio que um médico prescreveu. Quer dizer que uma mancha que se comporta assim precisa ser vista, e que a identificação do fungo resolve a dúvida.

O que acontece na avaliação

Muitas micoses se reconhecem pelo aspecto, mas confiar só na aparência é justamente o que produz o problema da seção anterior. Várias doenças que não são micose imitam micose, e o contrário também acontece.

No consultório, olho a borda, a descamação e a distribuição das lesões, e pergunto sobre animais em casa, sobre esporte, sobre quem mais na casa tem algo parecido e sobre o que já foi passado na pele. Quando o aspecto não basta, ou quando o resultado muda o tratamento, o exame micológico direto pode mostrar as estruturas do fungo, e a cultura ajuda a identificar qual é. Nenhum dos dois é infalível: um exame negativo não descarta micose. A lâmpada de Wood ajuda em algumas situações.

Uma observação prática: se você já está passando alguma coisa, avise antes do exame, porque produto recente pode atrapalhar o resultado e levar a um exame falsamente negativo.

Como o tratamento é escolhido

Depende de qual micose é, de quanto pega e de onde está.

Lesões pequenas e superficiais costumam responder a tratamento na própria pele. A escolha entre tratar na pele ou por via oral depende do tipo de micose, da extensão, do local, da idade e das outras condições de saúde. No couro cabeludo e na unha o caminho é sistêmico, porque o creme não alcança o fungo dentro do fio nem da lâmina; nos demais lugares a decisão é caso a caso.

Remédio por boca mexe com outras coisas: antes de receitar, preciso saber o que você já toma e, em alguns casos, pedir exames para acompanhar.

Também importa completar o tempo orientado e tratar o que alimenta a recidiva. Parar antes da hora pode deixar fungo ativo, embora algumas micoses voltem mesmo tratadas certo. E o pé que não seca direito recontamina a virilha quantas vezes for preciso.

No dia a dia

Quase tudo aqui vale contra as tineas, que são as que se transmitem. O pano branco não entra nesta lista, porque não se pega de ninguém.

  • Secar bem depois do banho, com atenção entre os dedos dos pés e nas dobras.
  • Alternar os sapatos e deixá-los arejar; pé que passa o dia em calçado fechado e úmido é o cenário ideal para o fungo.
  • Calçar chinelo em vestiário, sauna e área de piscina.
  • Não dividir toalha, roupa, alicate nem escova.
  • Vestir a meia antes da roupa de baixo quando há frieira e micose na virilha juntas: parece detalhe bobo, mas evita levar o fungo do pé para a dobra.
  • Se houver animal com falha de pelo em casa, vale mostrar ao veterinário: algumas tineas de criança vêm de gato ou cachorro. Quando outra pessoa da casa tem lesão parecida, ela também merece ser olhada, senão o fungo fica indo e voltando.

Perguntas frequentes

Pano branco pega? E impinge?

O pano branco não pega. O fungo dele já vive na sua pele. As tineas, como impinge e frieira, pegam sim, de pessoa para pessoa, de animais e de superfícies compartilhadas.

Tratei e a mancha continua. Não funcionou?

Não dá para concluir isso pela mancha. No pano branco, a cor demora de semanas a meses para se igualar depois que a atividade do fungo já foi controlada, então a mancha sozinha não diz se ainda há infecção. O que muda a resposta é o resto: se a descamação voltou ou a área cresceu, vale reavaliar.

Pano branco é micose de praia?

Não. A praia não transmite nada, e esse fungo já vive na sua pele. O que acontece é que a pele em volta bronzeia, a área afetada não acompanha, e a mancha que já estava lá fica evidente. Calor e suor favorecem o fungo, o que faz o verão juntar as duas coisas e levar a fama.

Tomar sol ajuda a sumir a mancha?

Não, e costuma piorar a impressão. Como a área afetada bronzeia menos que a pele ao redor, o sol aumenta o contraste e deixa a mancha mais aparente.

Posso passar aquela pomada que sobrou em casa?

É melhor não, sobretudo sem saber o que ela contém. Muitas pomadas de uso comum têm corticoide, que numa micose melhora nos primeiros dias e depois deixa o quadro se espalhar, além de apagar os sinais que permitiriam o diagnóstico.

Micose tem a ver com falta de higiene?

Não. Calor, umidade, suor, pele abafada por roupa ou calçado, diabetes e algumas alterações da imunidade pesam bem mais que sabonete. Antibiótico, que muita gente cita, tem relação mais clara com candidíase, que é outro grupo. É comum a pessoa passar a lavar mais e esfregar mais, o que irrita a pele e não resolve nada.

Quando devo procurar mais rápido?

Se houver dor, pus, vermelhidão que se espalha ou febre, porque pode haver infecção bacteriana associada. Também vale antecipar se você tem diabetes, se usa medicação que baixa a imunidade, ou se é uma criança com falha de cabelo, que precisa de tratamento por via oral.

Fontes principais consultadas

Quando vale procurar avaliação

Mancha que não sai, que volta todo verão, que espalhou depois de uma pomada, ou dúvida entre micose e outra doença: são as situações em que vale confirmar o diagnóstico antes de continuar tratando. Na consulta dá para examinar a pele inteira, colher o exame quando ele muda a conduta e definir o que tratar.

Conteúdo revisado pelo Dr. Antonio Pedro Ribeiro Heringer, médico dermatologista — CRM 155959-SP · RQE 63048. Última revisão: agosto de 2026.

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