Queratose actínica: a aspereza que o sol deixa
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Muita gente descobre a queratose actínica com o dedo, e não com o espelho. É aquela casquinha áspera na testa, na parte do couro cabeludo onde o cabelo rareou, na orelha ou no dorso da mão, que a pessoa sente ao passar a mão, tira com a unha e vê voltar semanas depois no mesmo lugar.
Ela é o registro, na pele, do sol que se acumulou ao longo da vida. E é uma lesão que merece avaliação, não susto: entender o que ela significa de fato, com números reais, costuma tranquilizar mais do que assustar.
Esta página não substitui a consulta, e a decisão sobre o seu caso depende do exame.
Por que ela aparece
A queratose actínica não vem de uma tarde de praia. Vem da soma de todas as tardes: o sol de ir e voltar do trabalho, o do almoço na rua, o de dirigir com o braço na janela, o das décadas anteriores, quando ninguém falava em fotoproteção.
Isso explica por que ela se concentra em quem tem pele clara, em quem passou a vida trabalhando ao ar livre e em quem já tem alguma idade. Num levantamento grande feito nos Estados Unidos, entre homens brancos de 65 a 74 anos com exposição solar acumulada alta, mais da metade tinha queratoses actínicas. Entre homens da mesma idade com exposição baixa, menos de um em cada cinco.
E explica um detalhe que costuma surpreender: homens com calvície acentuada têm muito mais lesões no couro cabeludo do que homens com o cabelo preservado. O cabelo funcionou, por décadas, como uma proteção física que ninguém percebeu que estava usando.
Como ela se parece
O aspecto mais comum é uma mancha ou placa pequena, de meio a um centímetro, avermelhada ou da cor da pele, com uma superfície seca e áspera por cima. A textura é a marca registrada, e as pessoas a descrevem quase sempre do mesmo jeito: parece uma lixa fina.
Os lugares preferidos são os que ficam permanentemente expostos: testa, couro cabeludo sem cabelo, orelhas, nariz, colo, antebraços e dorso das mãos. Nas mulheres, as pernas entram na lista com frequência.
Algumas lesões são planas e quase não avermelham, e essas realmente só aparecem ao toque. Outras formam uma casca grossa e endurecida. E a pele em volta costuma contar a mesma história: manchas de cor irregular, vasinhos finos, ressecamento, um tom amarelado.
Na maioria das vezes a lesão não incomoda. Quando incomoda, é uma fisgada ou uma ardência ao encostar.
O que ela significa, com números
Esta é a parte que mais gera ansiedade, e é onde vale ser honesto, inclusive sobre o tamanho da incerteza.
A chance de uma queratose actínica específica virar um carcinoma espinocelular ao longo de um ano é baixa. A revisão que reuniu os estudos sobre isso encontrou menos de 0,1% ao ano por lesão em quem nunca teve câncer de pele, e cerca de 0,5% ao ano por lesão em quem já teve, número que chega perto de 0,9% quando se contam junto os carcinomas iniciais, que ainda não invadiram. Os próprios autores da revisão avisam que esses dados são poucos e incertos, e que não dá para cravar uma estimativa confiável. Mas a ordem de grandeza é clara: a imensa maioria das lesões não vira câncer.
Só que esse número é por lesão, e quase ninguém tem uma lesão só. Quem tem queratose actínica costuma ter várias, e o risco da pessoa é a soma do risco de cada uma delas. Fazendo essa conta com o número médio de lesões que uma pessoa afetada carrega, que é de cerca de oito, chega-se a algo em torno de 10% de chance de aparecer um carcinoma ao longo de dez anos, e há estimativas que vão de 13% a 20% quando nada é tratado. É uma diferença grande em relação ao risco de uma lesão isolada, e é ela, não o número por lesão, que explica por que vale acompanhar e tratar.
Mais que isso: uma parte delas some sozinha. Ao longo de um ano, algo entre 20% e 30% das lesões regridem sem tratamento nenhum. A ressalva é grande, e prefiro dizê-la com o número: das lesões que sumiram, entre 15% e mais da metade voltam dentro do mesmo ano. Sumir e estar resolvido não são a mesma coisa.
Ao lado disso existe o outro lado do dado, que também é verdade: nos mesmos estudos, entre 59% e 65% dos carcinomas espinocelulares apareceram num lugar onde já havia uma queratose actínica. As duas coisas convivem sem contradição, porque as lesões são muito numerosas e a progressão de cada uma é rara.
O ponto prático que sai daí é o seguinte, e é o que orienta a conduta: não dá para saber, olhando, qual lesão vai seguir adiante. Por isso a lógica não é correr atrás de uma lesão perigosa escondida no meio das outras, e sim acompanhar e tratar a região com bom senso, sem urgência e sem alarme.
Há um segundo significado, que costuma passar despercebido: a presença de queratoses actínicas indica que aquela pele recebeu muito sol. Isso, por si só, já é motivo para examinar a pele inteira de vez em quando, porque o mesmo histórico se relaciona com outros tipos de câncer de pele.
Por que se trata a área, e não só a lesão
Quando alguém tem várias queratoses actínicas na testa ou na careca, o que se vê não é a história completa. A pele em volta recebeu exatamente o mesmo sol, e carrega alterações que ainda não formaram uma casquinha visível.
A dermatologia chama isso de campo de cancerização: uma região inteira de pele fotodanificada, com lesões visíveis e lesões que ainda não deram as caras. Estima-se que esses focos ainda invisíveis sejam bem mais numerosos que as lesões que se enxergam, e essa é a razão de existirem tratamentos aplicados na área toda, e não apenas ponto a ponto.
Na prática, clinicamente, o campo se reconhece quando a pele da região reúne pelo menos dois destes sinais: vasinhos finos aparentes, afinamento, manchas de cor irregular e aquela textura de lixa espalhada.
Isso muda a conversa na consulta. Numa pessoa com uma ou duas lesões isoladas, faz sentido tratar as lesões. Numa pessoa com a testa inteira áspera, tratar lesão por lesão é enxugar gelo, e o tratamento de área tende a render mais.
O que acontece na avaliação
O diagnóstico costuma ser clínico, feito com a combinação de olhar e tocar. A palpação não é detalhe: ela encontra lesões que a vista não separa do fundo avermelhado, e é ela que percebe quando uma lesão endureceu.
A dermatoscopia, que é o exame com o aparelho de aumento e luz encostado na pele, ajuda a confirmar e a diferenciar de outras lesões parecidas. Ela tem limites conhecidos, e o principal é nas lesões pigmentadas, em que a distinção para outras alterações da pele nem sempre é possível só pela imagem.
A biópsia não é rotina. Ela entra quando a lesão apresenta algum sinal que pede confirmação: tamanho maior que um centímetro, endurecimento ou infiltração ao toque, crescimento rápido, ferida que não fecha, dor, sangramento. E entra também numa situação bem concreta: quando a lesão foi tratada corretamente e, oito a doze semanas depois, continua lá. Lesão que não responde ao tratamento adequado merece exame, não uma segunda tentativa do mesmo tratamento.
Vale dizer que a espessura e o tamanho pesam mais nessa avaliação do que o quanto a lesão está avermelhada.
Como o tratamento é escolhido
A primeira pergunta não é qual tratamento é melhor, e sim quantas lesões existem e como está a pele em volta. As opções se dividem em duas famílias.
Tratamentos aplicados na lesão
Servem para uma lesão ou poucas, bem delimitadas.
A crioterapia com nitrogênio líquido é a mais usada. O congelamento é rápido, arde no momento, e nas horas seguintes costuma formar uma bolha ou uma crosta, que se solta sozinha à medida que a pele cicatriza. O tempo varia conforme o local e a intensidade do congelamento. É preciso saber de antemão que a área tratada pode ficar mais clara que a pele em volta depois de cicatrizar, o que incomoda mais em quem tem pele mais pigmentada.
Para lesões espessas, com casca grossa, às vezes se faz a raspagem da lesão, com ou sem cauterização, o que tem a vantagem de permitir enviar o material para exame.
Tratamentos aplicados na área
Servem quando há muitas lesões, ou quando o campo em volta está claramente danificado. São cremes ou procedimentos que tratam a região inteira, atingindo junto o que ainda não apareceu.
O 5-fluorouracil tópico é o mais estabelecido. Ele funciona provocando uma reação: a área tratada avermelha, descama, chega a formar feridinhas superficiais e depois cicatriza. Saber disso antes de começar muda tudo, porque o período incômodo dura algumas semanas e assusta quem não foi avisado. Mas existe um limite: se a reação ficar mais intensa ou diferente do que foi combinado, é hora de falar comigo antes de continuar, e não de aguentar calado.
O imiquimode em creme age estimulando a resposta imunológica local. Também produz vermelhidão e crostas. O esquema pode durar semanas e, depois que as aplicações terminam, a pele costuma levar cerca de duas semanas para se recuperar. Em algumas pessoas aparece uma sensação de gripe leve nos primeiros dias.
A terapia fotodinâmica combina uma substância aplicada na pele com uma luz específica. A reação lembra uma queimadura solar por alguns dias, com descamação depois, e ela costuma deixar um acabamento um pouco melhor que o do 5-fluorouracil. Em compensação, é feita no consultório e dói: no estudo que comparou os quatro tratamentos de área, cerca de seis em cada dez pessoas relataram dor forte durante a iluminação, contra uma a duas em cada dez com os cremes. É informação para você decidir sabendo, não para desencorajar.
Existe, sim, um mais eficaz. Nessa comparação direta, feita em mais de 600 pessoas com lesões no couro cabeludo e na face, o 5-fluorouracil manteve o resultado em doze meses com mais frequência que os outros três. O que não existe é uma escolha automática: quantas lesões há, onde estão, quanto tempo de pele avermelhada cabe na sua vida e o que já foi tentado antes continuam pesando. E é comum combinar, congelando a lesão mais grossa e tratando o campo em volta com creme.
Uma coisa que não se promete aqui é o fim do assunto. Queratose actínica volta, porque o sol que a causou já foi tomado, e o acompanhamento faz parte do tratamento tanto quanto o creme.
Quando é no lábio: queilite actínica
A mesma alteração acontece no lábio, quase sempre no inferior, que é o que fica mais exposto ao sol ao longo do dia. Chama-se queilite actínica, e ela se apresenta de um jeito diferente do resto da pele: o lábio fica permanentemente seco, áspero, com descamação que não resolve com hidratante, o contorno entre o lábio e a pele vai ficando apagado, e às vezes aparecem rachaduras.
Muita gente convive com isso durante anos achando que é ressecamento crônico, lábio rachado de vento ou hábito de morder.
O lábio merece uma atenção maior que a pele comum, por um motivo específico: quando o carcinoma espinocelular aparece no lábio, ele tem mais tendência a se espalhar do que quando aparece na pele. Não é motivo para pânico, é motivo para não deixar correr solto. Lábio persistentemente descamativo, com uma área endurecida ou uma ferida que não fecha, é situação de examinar.
Sobre o quanto a queilite evolui para carcinoma, a literatura é bem mais fraca aqui do que na pele. Uma revisão foi atrás justamente desse número: rastreou 1.126 trabalhos, leu 34 por inteiro e encontrou um só que servia, com cerca de 3%. Uma pesquisa brasileira que seguiu 224 pessoas por cerca de dez anos encontrou perto de 12%.
Você pode achar por aí números bem maiores, de 14% ou mais. Vale saber de onde eles vêm: em boa parte desses levantamentos, entraram na conta pessoas que já tinham o carcinoma no dia do diagnóstico, e isso mede outra coisa, não a transformação ao longo do tempo. De qualquer modo, é mais do que na pele, e é essa a razão de o lábio pedir acompanhamento próprio.
O tratamento muitas vezes segue a mesma lógica de campo, porque em geral o lábio inteiro está alterado, e não só um ponto. Mas se houver um ponto endurecido ou uma ferida que não fecha, a primeira decisão é se aquela área precisa de biópsia, antes de tratar o campo.
No dia a dia
A fotoproteção não é só prevenção de lesões novas: num estudo com quase 600 pessoas, quem usou protetor solar regularmente desenvolveu menos lesões novas e teve mais lesões antigas regredindo sozinhas do que quem não usou. É uma das situações em que a prevenção também ajuda a pele que já sofreu dano, embora não substitua o tratamento indicado para as lesões.
Mas protetor sozinho não dá conta de quem tem esse tipo de pele. O que efetivamente muda o acumulado é a soma: chapéu de aba larga, que protege couro cabeludo, orelhas e nariz de uma vez, camisa de manga, evitar o sol do meio do dia, e protetor reaplicado nas áreas que sobram.
Vale também criar o hábito de passar a mão pelas áreas de sempre de vez em quando. Como a queratose actínica se sente antes de se ver, o próprio tato é um bom instrumento de acompanhamento em casa.
Um grupo pede atenção maior que os outros: quem fez transplante de órgão ou usa remédio que reduz a imunidade tende a ter mais lesões e a precisar de acompanhamento mais de perto. Se for o seu caso, vale dizer isso logo na consulta, porque muda o intervalo das revisões.
E depois de tratar, o acompanhamento continua. A recomendação usual é rever a área entre seis meses e um ano depois do tratamento, para checar tanto o que voltou quanto o que apareceu de novo.
Perguntas frequentes
Queratose actínica é câncer?
Não. Ela é uma lesão pré-maligna: tem alterações nas células causadas pelo sol, e por isso merece acompanhamento, mas não é um câncer instalado. Uma parte pequena delas progride com o tempo, e a maioria não.
Se a maioria não vira câncer, por que tratar?
Por três motivos. Não dá para saber qual lesão vai progredir. Tratada cedo, a lesão costuma se resolver com um procedimento simples, enquanto um carcinoma em geral pede cirurgia. E o tratamento da área trata junto o que ainda não apareceu.
Posso só arrancar a casquinha?
A casquinha volta, porque ela é a superfície de uma alteração que está na pele, não sujeira acumulada em cima. Arrancar não trata, e ainda tira a referência do aspecto da lesão para quem for examinar.
Tratei e apareceram outras. O tratamento falhou?
Não necessariamente. O tratamento pode resolver muitas das lesões que já existiam e alcançar focos ainda invisíveis naquela área, mas não desfaz o sol acumulado nem impede lesões futuras em outras regiões. Aparecer lesão nova depois de um tempo é a evolução esperada, e é para isso que existe o acompanhamento.
A área ficou branca depois da crioterapia. Tem volta?
A perda de cor no local é uma consequência conhecida do congelamento e pode ser duradoura. Ela é mais evidente em pele mais pigmentada, e é uma das razões de a escolha do tratamento passar por conversa, e não por protocolo automático.
O creme deixou minha pele horrível. Está errado?
Provavelmente não. Os tratamentos de área funcionam provocando uma reação inflamatória, e a fase feia faz parte. O que precisa ser combinado antes é quanto tempo essa fase dura e quando ela sai do esperado, para você saber a diferença entre o curso normal e um problema.
Meu lábio vive descascando. Preciso me preocupar?
Precisa ser olhado, sobretudo se você tem histórico de sol e o lábio inferior está persistentemente seco e áspero, com o contorno apagado. Não é urgência, é avaliação.
Quando devo procurar mais rápido?
Lesão que cresce depressa, que endurece, que sangra, que dói, que virou uma ferida que não fecha, ou que continua no lugar dois a três meses depois de ter sido tratada.
Fontes principais consultadas
- Sociedade Brasileira de Dermatologia — Queratose Actínica
- Torezan LAR, Festa-Neto C. Campo de cancerização cutâneo: implicações clínicas, histopatológicas e terapêuticas. Anais Brasileiros de Dermatologia, 2013 — é a origem do conceito de campo usado aqui
- Lopes Filho LL, Lopes LRS. Tratamento do campo de cancerização cutâneo. Surgical & Cosmetic Dermatology, 2019
- Werner RN e col. História natural da queratose actínica: revisão sistemática. British Journal of Dermatology, 2013 — é a origem dos números de progressão e de regressão espontânea
- Jansen MHE e col. Ensaio randomizado de quatro tratamentos para queratose actínica. New England Journal of Medicine, 2019 — é a comparação direta entre os tratamentos de área
- Dancyger A e col. Transformação maligna da queilite actínica: revisão sistemática. Journal of Investigative and Clinical Dentistry, 2018 — é a origem do número da queilite
- Pierin RA, Sassi LM, Schussel JL. Transformação maligna da queilite actínica: estudo retrospectivo de dez anos. Journal of Clinical and Experimental Dentistry, 2024 — é a coorte brasileira citada
- Bolognia JL, Schaffer JV, Cerroni L. Dermatologia, 3ª edição, capítulo 108. É a origem do cálculo do risco por pessoa ao longo de dez anos
Quando vale procurar avaliação
Aspereza que não sai com hidratante, casquinha que volta sempre no mesmo lugar, pele de testa ou de careca que ficou áspera por inteiro, lábio inferior que vive descamando: são as situações em que vale examinar. Na consulta dá para olhar a pele toda com dermatoscopia, definir se o caso pede tratar lesões ou tratar a área, e combinar o acompanhamento.