Verrugas e HPV: sem constrangimento e sem receitas caseiras

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Uma lesão áspera na mão, um ponto dolorido na sola do pé, uma verruga que apareceu na região genital. As três podem ter relação com o HPV, e as três costumam vir acompanhadas de perguntas que a pessoa não faz em voz alta: isso é grave, de quem eu peguei, isso vira câncer, vou ter que contar para alguém.

Esta página responde a essas perguntas com calma, e começa por uma que quase ninguém faz: às vezes o que parece verruga não é verruga. Confirmar o diagnóstico antes de tratar evita queimar a lesão errada, e isso vale muito mais do que qualquer receita caseira.


O HPV não é um vírus só

HPV é o nome de um grupo grande de vírus que infectam a pele e as mucosas. Alguns tipos causam as verrugas comuns de mãos e pés; outros aparecem sobretudo na região genital e anal; e há tipos chamados de alto risco, associados a alguns cânceres.

Esses grupos não se misturam tanto quanto o medo sugere, e vale dizer isso com todas as letras, porque é a informação que mais alivia quem descobre uma verruga genital: cerca de nove em cada dez verrugas anogenitais são causadas pelos tipos 6 e 11, que são de baixo potencial oncogênico. O protocolo do Ministério da Saúde é direto no mesmo sentido: os tipos que causam verrugas genitais são quase sempre diferentes dos que causam câncer.

Duas consequências práticas disso, que costumam surpreender:

  • ter uma verruga genital não é sinal de que existe um câncer se formando, e tratá-la não tem por objetivo reduzir risco de câncer nenhum;
  • isso não dispensa o preventivo. O exame de rotina do colo do útero continua indicado do mesmo jeito, com ou sem verruga, vacinada ou não, porque ele procura outra coisa, que os tipos de alto risco causam em silêncio, ao longo de muitos anos.

Vale saber também que a maioria das infecções por HPV nunca produz lesão visível nenhuma, e passa sem que a pessoa saiba.


Como se pega

A principal via é o contato direto com a pele ou a mucosa, e o vírus aproveita qualquer porta de entrada: uma pele macerada, uma pelezinha arrancada, o hábito de roer unha, o barbear. É por isso que as verrugas costumam se espalhar pela própria pessoa, muitas vezes em fileira, ao longo de um arranhão, a chamada autoinoculação.

Para as verrugas dos pés existe também a via indireta, e ela explica a queixa mais comum dos pais: os livros descrevem o contágio no chão molhado de piscina, vestiário e academia, onde a pele úmida e a superfície áspera facilitam a entrada do vírus. Vale registrar que essa rota é discutida (há referências que a consideram provável e outras que a dão como não comprovada), mas usar chinelo em área comum é uma medida simples e sem custo.

Já na região genital o quadro é diferente: a transmissão é pelo contato sexual, e a transmissão por objetos é considerada rara. A ideia de pegar HPV genital em vaso sanitário não se sustenta.

Uma boa notícia que costuma surpreender: as verrugas comuns são pouco contagiosas. Conviver com alguém que tem uma verruga na mão não costuma ser motivo de preocupação.


Os tipos que mais aparecem

  • comuns (ou vulgares): mãos, dedos e joelhos, ásperas ao toque;
  • plantares: na sola do pé, achatadas pela pressão de pisar, muitas vezes doloridas ao caminhar; é a que muita gente chama de “olho de peixe”;
  • planas: pequenas, pouco elevadas e numerosas, mais frequentes no rosto e no dorso das mãos, sobretudo em adolescentes;
  • filiformes: finas e alongadas, típicas do rosto e do pescoço;
  • periungueais: ao redor e sob a unha, comuns em quem rói unha ou tira cutícula. São as mais teimosas, e merecem cuidado redobrado: tratamento agressivo perto da raiz da unha pode deixar deformidade permanente;
  • anogenitais (condilomas): na região genital e anal.

Sobre a verruga anogenital em criança, com a nuance que o assunto exige

No adulto, a verruga anogenital é transmitida por contato sexual. Em criança pequena, não se pode concluir a mesma coisa, e é importante dizer isso, porque a leitura apressada causa dano.

Nessa faixa etária o vírus pode ter passado da mãe no momento do parto, pode ter vindo da mão da própria criança que tinha uma verruga comum, ou do contato no banho e na troca. Um estudo citado nas referências brasileiras encontrou, em meninas com menos de cinco anos, o tipo 2 do HPV (o mesmo da verruga comum de mão) em cerca de 41% dos casos.

O protocolo do Ministério da Saúde orienta o equilíbrio certo: a ocorrência de lesão anogenital em criança deve levantar a suspeita de abuso e merece investigação cuidadosa, feita de modo a não negligenciar essa possibilidade nem produzir uma acusação injustificada. É assunto para avaliação sem pressa, não para conclusão à distância.


Quanto tempo dura?

Muita gente chega achando que verruga é para sempre, e muita gente chega esperando que suma sozinha em duas semanas. Nenhuma das duas coisas.

As verrugas podem desaparecer espontaneamente, mas isso não acontece no mesmo ritmo para todas as pessoas.

  • Em crianças, a regressão espontânea é comum. Uma pesquisa acompanhando crianças em idade escolar encontrou desaparecimento completo em cerca de metade delas dentro de um ano.
  • Em jovens adultos, a regressão costuma ser mais lenta, mas também acontece. Em um estudo, pouco mais da metade dos participantes não tratados ficou sem verrugas dentro de dois anos.
  • Nas verrugas anogenitais, a evolução é variável: sem tratamento, elas podem desaparecer, permanecer iguais ou aumentar em tamanho ou número.

Por isso, acompanhar sem tratar imediatamente pode ser uma conduta possível quando o diagnóstico está claro, a pessoa tem a imunidade preservada e as lesões são poucas, assintomáticas e não causam incômodo.

Isso não significa ignorar a verruga. Dor, sangramento, crescimento, aumento do número de lesões, prejuízo funcional ou emocional, dúvida sobre o diagnóstico e imunossupressão mudam a decisão. Verrugas anogenitais também exigem avaliação própria, mesmo quando se opta por observar.


O que o tratamento resolve — e o que não resolve

Esta é a parte que evita quase todas as frustrações, e ela cabe em uma frase: os tratamentos destroem a lesão, não o vírus.

Não existe remédio que elimine o HPV do corpo. O que se faz é remover ou destruir a verruga visível, e contar com a imunidade para o resto. O protocolo do Ministério da Saúde é explícito: não há evidência de que os tratamentos disponíveis modifiquem a história natural da infecção.

Daí decorrem duas coisas que prefiro dizer antes, e não depois:

  • recorrência é comum. As cifras variam bastante conforme o local e o estudo (de cerca de um quinto a mais da metade dos casos), e voltar não significa que o tratamento foi malfeito;
  • pode ser preciso mais de uma sessão, e existe um ponto em que faz mais sentido mudar de estratégia do que insistir na mesma.

As opções incluem medicamentos aplicados na pele, congelamento e outros procedimentos feitos no consultório. A escolha depende do tipo de verruga, do local, do número de lesões, da idade e da sua saúde. Em pele mais escura, entra o cuidado adicional com o risco de deixar mancha clara no local.

Na região genital a conversa inclui ainda transmissão, prevenção e o exame de outras áreas. Ácidos vendidos para verruga de mão e pé não devem ser usados na região genital.


Antes de tratar, é preciso saber o que é

Na maior parte das vezes o exame resolve. Eu olho a superfície, a distribuição e a evolução, e uso a dermatoscopia quando a lesão pede. O aparelho de aumento mostra detalhes que a olho nu não aparecem. Quando o aspecto foge do esperado, a biópsia entra, e ela não é excesso de zelo: o melanoma que surge na sola do pé pode imitar uma verruga plantar (sobretudo nas formas sem pigmento, que não têm a cor escura que todo mundo espera), e essa semelhança é uma causa conhecida de atraso no diagnóstico. Existe inclusive um caso publicado no periódico da Sociedade Brasileira de Dermatologia em que a lesão levou dez meses até ser reconhecida. Em pessoa idosa com uma lesão única e antiga, ou em verruga que não responde a nada, essa checagem é ainda mais importante.

Verruga plantar não é calo

É a confusão número um, e a distinção é razoavelmente simples:

  • a verruga interrompe as linhas naturais da pele e, quando se desbasta a superfície, aparecem pontinhos escuros, que são pequenos vasos coagulados;
  • o calo mantém as linhas da pele e, ao ser desbastado, mostra um núcleo central translúcido, sem esses pontos;
  • a dor também ajuda: a verruga costuma doer mais quando se aperta de lado, e o calo, quando se pressiona de cima para baixo.

⚠️ E aqui vai o aviso mais importante desta página. Quem tem diabetes, neuropatia ou má circulação nos pés não deve usar ácido de farmácia por conta própria: a sensibilidade reduzida faz com que a pessoa não perceba a lesão que o produto está causando, e a cicatrização é pior. Nesse caso, o pé é avaliado antes de qualquer coisa ser aplicada nele.


O que costuma pesar, e ninguém pergunta em voz alta

“De quem eu peguei isso?” Na maioria das vezes não há como saber. O tempo entre a infecção e o aparecimento da lesão pode ser longo (de semanas a mais de um ano), e a pessoa que transmitiu pode nunca ter tido lesão nenhuma. Uma verruga que aparece agora não é prova de nada sobre a relação atual, e o próprio protocolo brasileiro chama atenção para o sofrimento e a insegurança que esse achado provoca nos relacionamentos.

Gravidez. O HPV não causa infertilidade. Durante a gestação, as verrugas podem crescer mais rapidamente e sangrar com maior facilidade, e algumas regridem depois do parto.

A via de parto é definida pelo obstetra, em conjunto com a gestante. A presença de HPV ou de verrugas anogenitais não obriga, por si só, a realização de cesárea. Ela pode ser indicada quando as lesões obstruem o canal de parto ou quando há risco importante de sangramento.

Imunidade baixa. Em quem faz tratamento imunossupressor ou recebeu transplante, as verrugas são mais frequentes, mais numerosas e bem mais resistentes: em transplantados renais, a proporção com verrugas cresce muito ao longo dos anos após o transplante. Nesse grupo o acompanhamento é mais próximo, e a biópsia entra com mais facilidade.

Crianças. Verruga é comum na infância e na adolescência, e roer unha, chupar o dedo e arrancar pelezinha são justamente os hábitos que espalham. Não é preciso afastar a criança de nada: nem da escola, nem da piscina.


Vacina e prevenção

A vacina usada no SUS protege contra os tipos 6, 11, 16 e 18 do HPV. Isso inclui os dois tipos responsáveis por quase todas as verrugas genitais e dois tipos de alto risco associados a câncer. Ela não trata uma verruga que já existe e não substitui a avaliação da lesão.

No Calendário Nacional de Vacinação de 2026, meninas e meninos não vacinados dos 9 aos 14 anos recebem uma dose. Adolescentes de 15 a 19 anos sem histórico vacinal podem receber uma dose em estratégia de resgate, conforme a organização de cada estado.

Pessoas imunodeprimidas, pessoas que usam PrEP contra o HIV e outros grupos prioritários têm faixas etárias e esquemas próprios. A vacina é contraindicada durante a gestação e pode ser aplicada durante a amamentação.

Como o calendário e as estratégias de resgate podem mudar, confira a indicação atual na unidade de saúde, no serviço de vacinação ou na consulta. A vacina também está disponível na rede privada.

Preservativo reduz o risco, mas não elimina: ele não cobre toda a pele que pode transmitir o vírus.

Uma lesão que cresce, dói, sangra, muda de aparência ou está na região genital merece ser examinada. Evite cortar, queimar ou aplicar substâncias caseiras. Além de machucar, isso apaga características que ajudariam no diagnóstico.


Perguntas frequentes

Toda verruga é uma infecção sexualmente transmissível?

Não. As verrugas de mãos e pés também são causadas por HPV, mas por tipos diferentes e por vias de contágio banais, do dia a dia. Só as anogenitais entram na conversa sobre infecções sexualmente transmissíveis.

Como saber se a verruga é HPV ou é outra coisa?

Pelo exame, e às vezes só com um recurso a mais. No dia a dia, “verruga” é o nome que se dá a quase qualquer alteração elevada da pele, e boa parte do que chega ao consultório com esse nome não é verruga: sinal de pele, queratose seborreica (aquela lesão amarronzada e como que colada na pele, comum a partir da meia-idade), calo e outras lesões entram na mesma palavra.

A verruga de verdade é causada pelo HPV, e o que a distingue costuma ser a superfície: áspera, com pontinhos escuros na trama, que são vasos. A dermatoscopia ajuda a ver esses pontos, e na planta do pé ela separa a verruga do calo, que é a confusão mais frequente. ⛔ Não existe exame de rotina que se peça só para dizer “isto é HPV”: o caminho é o exame da lesão.

Verruga genital vira câncer?

As verrugas genitais vêm quase sempre de tipos de baixo risco: cerca de nove em cada dez são dos tipos 6 e 11. Os principais tipos associados a câncer em geral são outros, embora coinfecções possam acontecer. É exatamente por isso que o exame preventivo continua tendo o papel dele, independentemente de você ter tido verruga ou não.

A vacina elimina uma verruga que já existe?

Não. Ela é preventiva. Tratar a lesão existente é outra conversa.

Verruga pode voltar depois do tratamento?

Pode, e não é raro. O tratamento retira a lesão visível, mas o vírus pode permanecer na pele, e por isso a recorrência acontece em uma parcela relevante dos casos, variando bastante conforme o local. Verrugas em volta da unha e na sola do pé são as que mais reincidem.

Posso deixar como está?

Em muitos casos sim, sobretudo em criança com poucas lesões que não doem. Deixar de tratar é uma escolha razoável quando o incômodo é pequeno. O que não vale é tratar por conta própria com produto comprado sem saber o que é a lesão.

Preciso contar para o meu parceiro ou parceira?

Quando a verruga é genital, a conversa faz parte do cuidado, e ela costuma ser mais fácil com a informação certa em mãos: o tempo de incubação é longo, muita gente tem o vírus sem nunca ter tido lesão, e o diagnóstico não indica quem transmitiu nem quando.

Para conferir as informações


Está em dúvida se uma lesão é verruga, ou cansado de tratar sem resolver? Dá para examinar com calma, confirmar o que é e escolher o caminho com expectativa no lugar certo.

Conteúdo revisado pelo Dr. Antonio Pedro Ribeiro Heringer, médico dermatologista — CRM 155959-SP · RQE 63048. Última revisão: agosto de 2026.

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