Algumas perguntas sobre protetor solar aparecem quase toda semana no consultório, e todas têm resposta prática. Reuni aqui o que respondo a elas.
“Qual fator de proteção devo usar?”
FPS 30 ou mais, de amplo espectro, é a recomendação de base para uso ao ar livre. “Amplo espectro” quer dizer que cobre UVA além de UVB, e não é detalhe: cerca de 95% da radiação ultravioleta que chega ao chão é UVA.
Há um motivo prático para preferir um número mais alto que o mínimo, e ele não é o que parece. Não é que FPS 70 proteja o dobro de FPS 35: a diferença entre eles, no laboratório, é pequena. É que quase ninguém aplica a quantidade em que o número foi medido, e o número alto compensa parte dessa falta. É a próxima pergunta.
⚠️ Um FPS mais alto também não estica o tempo entre uma aplicação e outra. Isso é mal-entendido comum, e leva a passar menos vezes justamente quem comprou o produto mais forte.
“Com qual frequência eu tenho que reaplicar?”
A cada duas horas, no mínimo, enquanto houver exposição. E fora desse relógio existe uma situação que zera a proteção antes da hora: água e suor. Depois de nadar, de transpirar bastante ou de se secar com a toalha, o protetor precisa ser reaplicado, mesmo quando a embalagem diz resistente à água.
Esse “resistente à água” tem um significado estreito: quer dizer que o produto mantém a proteção declarada por 40 minutos de atividade na água ou suando. A versão “muito resistente” estende isso para 80 minutos. São minutos, não o dia.
“Passo pouco?”
Quase todo mundo passa. É o problema mais comum da fotoproteção, e não aparece no espelho: com metade da quantidade, a proteção real fica bem abaixo do número impresso no frasco.
Existe uma medida caseira que ajuda a calibrar, a regra da colher de chá:
- 1 colher de chá para rosto e pescoço juntos;
- 2 colheres para o tronco (frente e costas);
- 1 colher para cada braço;
- 2 colheres para cada perna.
O corpo inteiro dá algo entre 6 e 9 colheres de chá. Se a sua embalagem dura meses, provavelmente está passando pouco.
Duas coisas de tempo também contam. Aplicar 15 a 30 minutos antes de sair, para o filme se formar na pele, e esperar alguns minutos antes de se vestir.
“Pego sol umas sete da manhã sem protetor. Tem problema?”
Eu costumo dizer no consultório que não há dose de sol saudável, e é o que respondo aqui também.
O começo da manhã é, sim, o horário em que a radiação está mais baixa: o sol das sete não é o mesmo sol das treze. Mas “mais baixa” não é “nenhuma”, e o dano ultravioleta se acumula ao longo da vida, e não zera entre uma exposição e outra. É por isso que eu não trabalho com a ideia de uma quantidade pequena que compensa.
Duas coisas ainda mudam a conta para pior: em São Paulo, no verão, a radiação sobe mais cedo do que a intuição sugere, então “sete da manhã” no inverno e no verão são situações diferentes. E quem já tem melasma ou histórico de câncer de pele parte de outro ponto, porque nesses casos até a luz visível pesa.
Se o motivo de pegar esse sol é a vitamina D, a próxima resposta é para você.
“Minha vitamina D está baixa. Não tenho que tomar sol?”
Esta é a que mais gera conflito, porque a pessoa costuma chegar com essa orientação de outro consultório.
O ponto é que existe um caminho mais confiável para corrigir a vitamina D do que a exposição ao sol: investigar e repor. Quando alguém se protege muito, por roupa ou por uso constante de protetor, o que se faz é justamente dosar a vitamina D e suplementar quando faz falta. A reposição é previsível na dose e no efeito; o sol não é, porque depende de horário, estação, pele, idade e de quanto tempo a pessoa realmente ficou exposta.
Vale registrar o que a evidência mostra e o que ela não mostra. Os dados sobre o efeito do protetor solar na vitamina D são conflitantes. Num ensaio com mais de 600 participantes, quem usou protetor de FPS 50 ou mais todos os dias de radiação alta teve mais deficiência de vitamina D em um ano do que quem usava conforme julgasse necessário (45,7% contra 36,9%). Já o uso comum de protetores com FPS menor, ao que tudo indica, não leva à deficiência.
Ou seja: a preocupação com a vitamina D é legítima, e a resposta para ela não precisa ser abrir mão da proteção. Precisa ser medir e repor.
O que costuma ajudar no dia a dia
- Escolher um protetor de amplo espectro, que cubra UVA e UVB.
- Não contar só com o creme: chapéu de aba larga, camiseta, sombra e evitar o horário de sol mais forte somam proteção sem depender de reaplicação.
- Lembrar do protetor em dia nublado, perto de janelas e no carro. O UVA, que responde por cerca de 95% do ultravioleta que chega ao chão, não depende de o dia estar bonito.
- Reaplicar depois da água, do suor e da toalha, não pelo relógio apenas.
Perguntas frequentes
Preciso passar protetor se fico o dia inteiro dentro de casa?
Depende de onde você fica. Perto de janela, sim. O vidro comum barra boa parte do UVB, mas deixa passar UVA, que responde por cerca de 95% do ultravioleta que chega ao chão e participa do envelhecimento e das manchas.
Protetor com cor é melhor?
Em algumas situações, sim, e vale entender por quê. O protetor com cor leva pigmentos, dióxido de titânio e óxidos de ferro, que somam proteção contra a luz visível e contra o UVA de onda mais longa. Isso importa porque a luz visível, sozinha ou junto com esse UVA, é capaz de estimular pigmentação em peles mais pigmentadas.
Por isso ele costuma ser a escolha em melasma e em outras manchas escuras, e a concentração faz diferença: as formulações com pelo menos 3% de óxidos de ferro são as mais úteis nesses casos.
Para queimadura e câncer de pele, o que conta continua sendo o amplo espectro e a quantidade aplicada.
Tenho que passar protetor à noite?
Não. A radiação ultravioleta vem do sol, e à noite ela não existe.
Vale a precisão, porque nem todo protetor protege só de ultravioleta: os com cor acrescentam uma barreira contra a luz visível, que existe em qualquer lâmpada. Ainda assim, a luz visível que importa para a pele é de outra ordem de grandeza: é a do sol, inclusive a que entra pela janela durante o dia. Se você tem melasma e a dúvida é sobre a luz de dentro de casa, traga isso na consulta, porque a conduta muda conforme o caso.
A rotina da noite serve para outra coisa: limpar a pele e usar o que foi indicado para você.
Base e hidratante com FPS substituem o protetor?
Costumam não substituir, e o motivo é a quantidade: ninguém aplica base na medida da colher de chá. Servem como reforço, não como a camada principal.
Peguei sol e queimei. Adianta passar protetor depois?
Não desfaz a queimadura, que é uma lesão já instalada. Nesse momento o que ajuda é sair do sol, hidratar e cuidar da pele. O protetor é para as próximas exposições, inclusive porque a pele queimada fica mais vulnerável.
Para conferir as informações
Se você tem melasma, histórico de câncer de pele ou simplesmente não sabe qual protetor faz sentido para a sua rotina, vale conversar sobre isso na consulta. Ver opções de agendamento.
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